Riscos da radiação

Os tecidos fetais, devido ao seu rápido crescimento e grau de indiferenciação, são extremamente sensíveis à radiação. Os principais mecanismos para o aparecimento dos efeitos adversos fetais são a morte de células, atraso na divisão mitótica e alterações na migração celular.

Os riscos da irradiação por motivos médicos duma mulher grávida foram avaliados em duas publicações da “International Commission on Radiological Protection”[345]. Os estudos nos que se baseiam para analisar e descrever os riscos resultam da experimentação animal, da avaliação dos sobreviventes a explosões nucleares, de dados de crianças expostas in utero a técnicas radio-diagnósticas, e à avaliação de crianças expostas durante o período de gestação às radiações do acidente nuclear de Chernobyl.

Em termos gerais, considera-se que a exposição a radiações ionizantes in utero pode ocasionar os seguintes efeitos adversos: morte, malformações, atraso de crescimento, atraso mental e aumento da incidência de neoplasias. Mas é importante observar que os efeitos biológicos da radiação ionizante sobre o feto dependem fundamentalmente do período de gestação e da dose de radiação recebida.

Na primeira semana de gestação, quando o número de células é reduzido, o mais provável é que o dano produzido pela radioterapia impeça a implantação do embrião ou produza a sua morte directa, que poderá nem ser advertida pela mãe. Por esta razão, neste período as malformações são raras ou inexistentes. Em estudos com animais parece verificar-se um fenómeno conhecido pela lei do “tudo ou nada”, quer dizer, o embrião morre ou desenvolve-se normalmente: se várias células forem danificadas letalmente o embrião não se desenvolve; se são afectadas só algumas células, outras células pluripotenciais podem substituir as células mortas e o embrião pode prosseguir normalmente o seu desenvolvimento. Estas observações derivam principalmente do estudo de sobreviventes das bombas atómicas de Hiroshima e Nagasaki, onde se verificou uma alta incidência de nascimentos normais e de abortos espontâneos em mulheres grávidas que foram afectadas pela radiação nos primeiros quinze dias depois da concepção, confirmando a teoria do “tudo ou nada”.

Durante a organogénese, entre as semanas 2 e 8 após a concepção, a exposição à radiação pode causar malformações, principalmente nos órgãos em desenvolvimento. As malformações podem dar-se quando se ultrapassa o limiar de 0,1-0,2 Gy de radiação.

As alterações no sistema nervoso central e o atraso do crescimento intra-uterino constituem as complicações mais frequentes induzidas pela radiação no ser humano. Também se podem verificar alterações oculares (microftalmia, degeneração pigmentar da retina, atrofia óptica, cataratas, estrabismo), alterações genitais (hipoplasia, hipospádia), alterações esqueléticas e mais raramente alterações viscerais[346].

Nas semanas 8-25 de gestação o sistema nervoso central é particularmente sensível à radiotoxicidade. Entre as semanas 8 e 15 uma dose fetal de 0,1 Gy pode resultar numa redução quantificável do coeficiente de inteligência (IQ). Como foi deduzido de um estudo que avaliou o desenvolvimento intelectual de crianças com 10 e 11 anos de idade e que no momento das explosões nucleares estavam no ventre materno, a exposição a radiações durante este período pode diminuir o coeficiente de inteligência em 21 pontos por 1 Gy[347]. Durante o mesmo período, doses fetais superiores a 1 Gy associam-se com uma elevada probabilidade de atraso mental severo[348]. Para uma dose de 1 Gy, o risco de atraso mental é de cerca 40%. Mas o risco de a radiação provocar danos no sistema nervoso central estende-se até períodos mais tardios da gestação, o que reflecte o facto de o desenvolvimento do sistema nervoso central se prolongar ao longo de toda a gestação. De facto, entre as semanas 16-25 de gestação a exposição a radiação também se traduziu em uma diminuição, se bem que mais pequena, do coeficiente de inteligência da ordem de 13 pontos por 1 Gy. Em definitivo, o limiar de dose de radiação capaz de provocar atraso mental é de 0,06 Gy para um feto ente 8-15 semanas e de 0,25 Gy para um feto de 16-25 semanas de gestação[349].

Por outro lado, o atraso de crescimento intra-uterino pensa-se que pode ter origem na depleção celular global que pode produzir-se em qualquer momento da organogénese e ao longo de todo o período fetal; e que se pode acompanhar de efeitos teratogénicos. Estima-se que o atraso de crescimento se observa a partir da dose de 0,5 a 2 Gy recebidos a partir da 15ª semana de gestação.

Durante as últimas semanas de gestação o feto parece ter uma maior resistência aos efeitos nocivos da radiação e requerem-se doses mais altas para que se produza um dano estrutural. Ainda assim, é neste período que aparecem a maioria das desordens funcionais, como alterações na medula óssea, hepáticas e renais; alterações que podem não evidenciar-se até à idade adulta. Com doses altas de radiação, os efeitos são semelhantes aos verificados com a exposição pós-natal, quer dizer, alterações hematopoiéticas, dermatológicas e perda de pelo.

Finalmente, deve comentar-se o eventual risco acrescido de neoplasias na infância, sobretudo de leucemia, habitualmente descrito em associação à exposição à radiação (“stochastic effect”). No entanto, deve notar-se que a incidência geral de leucemia infantil é reduzida, cerca de 2-3 casos por 1.000, e que a irradiação fetal em dose superior a 0,01 Gy aumentará cerca de 40% este risco, quer dizer, para 3-4 por 1.000. Ainda assim, outros estudos sugerem que este risco é provavelmente inferior[350]. De facto, os dados relativos ao eventual efeito carcinogénico das radiações são contraditórios, tendo sido publicados trabalhos num e noutro sentido e mantém-se a controvérsia acerca do risco de indução de neoplasias malignas no feto submetido a irradiação, que em qualquer caso é reduzido[351].

…………………………….

[345] Cfr. International Commission on Radiological Protection, Pregnancy and medical radiation, «Ann ICRP» 30 (2000) e idem, Biological effects after prenatal irradiation (embryo and fetus), «Ann ICRP» 33 (2003). Citado em: H. B. Kal, H. Struikmans, Radiotherapy during pregnancy: fact and fiction, «Lancet Oncol» 6 (2005), p. 328.

[346] Cfr. M. Muslim, J. Goldberg, A. Hageboutros, Chemio e radioterapia in gravidanza, em E. R. Barnea, E. Jauniaux, P. E. Schwartz (eds.), Cancro e gravidanza, CIC edizioni internazionali, Roma 2003, p. 161.

[347] Cfr. W. J. Schull, M. Otake, Effects on intelligence of prenatal exposure to ionizing radiation. RERF Technical Report, «Hiroshima: Radiation Effects Research Foundation» (1986), pp. 7-86; W. J. Schull, M. Otake, H. Yoshimaru, Effect on intelligence test score of prenatal exposure to ionizing radiation in Hiroshima and Nagasaki: a comparison of the T65DR and D86 dosimetry systems. RERF Technical Report, «Hiroshima: Radiation Effects Research Foundation» (1988), pp. 3-88.

[348] Cfr. M. Otake, W. J. Schull, Radiation-related brain damage and growth retardation among the prenatally exposed atomic bomb survivors, «Int J Radiat Biol» 74 (1998), pp. 159-171.

[349] Cfr. M. Otake, W. J. Schull, S. Lee, Threshold for radiation-related severe mental retardation in prenatally exposed A-bomb survivors: a re-analysis, «Int J Radiat Biol» 70 (1996), pp. 755-763.

[350] Cfr. R. Doll, R. Wakeford, Risk of childhood cancer from fetal irradiation, «Br J Radiol» 70 (1997), p. 130.

[351] Cfr. H. B. Kal, H. Struikmans, Radiotherapy during pregnancy: fact and fiction, o.c., p. 329.

Aborto e ética. Todos os direitos reervados.

aborto