Radioterapia

As radiações ionizantes foram descobertas em 1895 por Wilhelm Roentgen, ao comprovar o efeito produzido por um tubo de raios catódicos (passagem de uma corrente eléctrica através de um gás a baixa pressão) envolto em materiais grossos e opacos num monitor localizado à distância e que se tornou fluoroscente. Roentgen chamou raios X aos que produziam essa imagem, devido à sua natureza desconhecida. Em pouco tempo começaram a usar-se as radiações no tratamento do cancro.

Actualmente sabe-se que as radiações são partículas subatómicas (electrões, protões, neutrões, partículas a, etc.) e fotões. Os fotões eram os raios X que Roentgen observou pela primeira vez nas suas experiências de laboratório.

Na prática clínica mundial, mais de 90% da radioterapia é levada a cabo em unidades com aceleradores lineares de fotões e electrões: os fotões, que constituem de longe o tipo de radiação mais utilizado, permitem irradiar em profundidade limitando o nível de dose nos tecidos periféricos; os electrões permitem irradiar em superfície, limitando a toxicidade nos tecidos em profundidade. Outra técnica de radioterapia utilizada em alguns tumores – braquiterapia – situa fontes radioactivas junto ao tumor, melhorando a eficácia e limitando os efeitos secundários.

Como antes se estudou, no apartado dedicado ao estudo dos métodos de imagem radiológicos, as radiações podem causar dano celular (morte, mutações, etc.) quando afectam o DNA e/ou RNA das células fetais, sabendo-se que as células são mais sensíveis quando se encontram em fase de mitose. Este é o motivo pelo que a radiação produz a morte de células tumorais, mas pode também causar colateralmente toxicidade nas células do embrião ou do feto[367].

Por esta razão, quando durante a gravidez se faz um diagnóstico de uma neoplasia para a qual estaria indicado fazer radioterapia, evidentemente o planeamento da abordagem terapêutica tem que ser adaptado às circunstâncias fisiológicas da paciente, pois é fundamental saber se a radioterapia pode ser administrada de forma segura, quer dizer, sem riscos acrescidos para a mãe e, sobretudo, para o feto.

De facto, pode dizer-se que existe um potencial conflito entre mãe e filho, já que se por um lado a mãe poderia beneficiar do tratamento, o feto não está livre dos efeitos tóxicos das radiações. Deste modo, é fundamental uma avaliação médica multidisciplinar que pondere adequadamente as implicações clínicas e éticas da decisão terapêutica.

Como é lógico, o médico radioterapeuta deve estar capacitado para justificar a necessidade de iniciar a radioterapia antes do parto, pois como estabelecem vários autores sempre que possível deve ser diferida para depois do parto, para evitar a exposição do feto a radiações ionizantes.

Além disso, é imprescindível assegurar que antes de iniciar o tratamento de qualquer mulher em idade fértil ela não está grávida, para evitar a irradiação fetal em doses superiores aos limites de segurança estabelecidos.

Radioterapia durante a gravidez: considerações clínicas

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[367] Cfr. J. D. Azcona, R. Martínez Monge, Radioterapia y teratogénesis, em G. López (ed.), Cáncer y embarazo, Eunsa, Pamplona 2007, pp. 43-47.

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