Radioterapia e aborto

Embora a radiação ionizante apresente consequências potencialmente tóxicas para o feto, conforme se estudou a recomendação de não irradiar uma mulher grávida até depois do parto não é sustentável[482]. De facto, está demonstrado que a gravidez não constitui uma contra-indicação absoluta para a radioterapia do cancro da mama, da doença de Hodgkin[483] supra-diafragmática, e de outros tumores extra-pélvicos.

Quando a paciente com cancro está em idade fértil, logicamente é fundamental assegurar-se que não está grávida antes de iniciar um tratamento por radiações. Se a paciente está grávida devem tomar-se todas as precauções para evitar danos fetais: retardar o mais possível o início da radioterapia para etapas em que o feto é menos susceptível a efeitos radiotóxicos ou planear o tratamento do cancro de modo a começar com cirurgia ou quimioterapia atrasando o início da radioterapia para depois do parto, que eventualmente poderia ser antecipado para logo que a criança fosse viável[484].

O principal dilema ético associa-se aos tumores da região pélvica em que o tratamento com radiações pode provocar danos graves e letais para o feto[485]. Este é o caso de alguns tumores do colo uterino em estadio avançado e diagnosticados antes da viabilidade do feto. Aqui a literatura científica habitualmente recomenda que a radioterapia não deve ser atrasada e, quando o parto não pode ser antecipado, a consequência inevitável é a morte do feto.

No entanto, esta é uma atitude que frequentemente parece aceitar com ligeireza a morte do feto, sem considerar seriamente as opções terapêuticas. Mais adiante estudar-se-á este caso, as alternativas terapêuticas e implicações éticas, mas deve adiantar-se que existem artigos científicos publicados nos anos mais recentes, baseados sobretudo em casos de mulheres grávidas que recusaram tratamentos que provocassem a morte do feto em gestação, e que puderam salvar o seu filho sem agravar o prognóstico da sua doença: modificando a estratégia terapêutica ou atrasando o tratamento para depois do parto[486].

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[482] Cfr. H. B. Kal, H. Struikmans, Radiotherapy during pregnancy: fact and fiction, «Lancet Oncol» 6 (2005), p. 332.

[483] É interessante observar que até aos inícios dos anos 80` a literatura médica habitualmente recomendava o aborto terapêutico quando se diagnosticava um linfoma nas primeiras semanas de gestação. Actualmente sabe-se que os linfomas podem ser eficazmente tratados com quimioterapia, e a radioterapia pode não ser necessária ou pelo menos pode ser retardada para depois do parto. Cfr. R. Orecchia, G. Lucignani, G. Tosi, Prenatal Irradiation and Pregnancy: The Effects of Diagnostic Imaging and Radiation Therapy, em A. Surbone, F. Peccatori, N. Pavlidis (eds.), Cancer and Pregnancy, Springer, Berlin Heidelberg 2008, p. 14.

[484] Cfr. ibid.; J. D. Azcona, R. Martínez Monge, Radioterapia y teratogénesis, em G. López (ed.), Cáncer y embarazo, Eunsa, Pamplona 2007, pp. 47-49.

[485] Cfr. H. B. Kal, H. Struikmans, Radiotherapy during pregnancy: fact and fiction, o.c., p. 330.

[486] Ver, por exemplo, as seguintes publicações: S. Caluwaerts, K. van Calsteren, L. Mertens, L. Lagae, P. Moerman, M. Hanssens, K. Wuyts, I. Vergote, F. Amant, Neoadjuvant chemotherapy followed by radical hysterectomy for invasive cervical cancer diagnosed during pregnancy: report of a case and review of the literature, «Int J Gynecol Cancer» 16 (2006), pp. 905-908; H. P. van de Nieuwenhof, M. A. van Ham, F. K. Lotgering, L. F. Massuger, First case of vaginal radical trachelectomy in a pregnant patient, «Int J Gynecol Cancer» 18 (2008), pp. 1381-1385.

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