Radioterapia durante a gravidez: considerações clínicas

Mais adiante neste trabalho estudar-se-á com mais detalhe a radioterapia em relação com diferentes tipos de neoplasias, bem como as eventuais implicações clínicas e éticas. No entanto, apresentam-se agora alguns dados gerais que possibilitam adiantar uma avaliação global.

Quando se considera necessário a radioterapia numa mulher grávida com cancro, devem ter-se em conta alguns princípios fundamentais:

– Localização do tumor: na região pélvica ou longe da região pélvica.

– Possibilidade de atrasar o tratamento para depois do parto.

– Capacidade de proteger o feto dos efeitos tóxicos da radiação, nos casos em que se considere urgente a necessidade de iniciar a radioterapia.

Em geral, considera-se que a mulher grávida com uma neoplasia localizada longe da região pélvica – cancro da mama, doença de Hodgkin supra-diafragmática, tumores da cabeça e pescoço e cérebro – pode ser adequadamente tratada com radioterapia, quer dizer, sem perigo de toxicidade fetal, desde que a planificação do tratamento seja cuidadosa[368].

Em qualquer caso, é necessário fazer uma estimativa da dose que receberia o embrião ou o feto, para poder assegurar que está por baixo do limite de 0,1 Gy. Este valor é habitualmente considerado como o limite de segurança para toxicidade fetal, se bem que muitos autores afirmem que se trata de um valor bastante conservador.

Por outro lado, tendo que irradiar uma mulher grávida deve ser sempre considerada uma planificação adequada da radioterapia e o emprego de protecções que permitam reduzir a irradiação fetal para limites seguros.

Na seguinte tabela apresentam-se os dados de tumores afastados do útero e tratados com radiação. A dose fetal situou-se dentro dos limite de segurança e foi possível tratar adequadamente a doença materna sem comprometer a saúde do filho[369].

Portanto, como se pode observar na tabela, para este tipo de tumores é possível fazer um planeamento da radioterapia de tal modo que o feto não seja irradiado em doses superiores às de segurança e, deste modo, a gravidez não constitui uma contra-indicação absoluta para a radioterapia[370].

Deve insistir-se que para doses fetais inferiores a 0,1 Gy nenhum autor considera que existe justificação médica para terminação da gravidez[371]. Além disso, esta dose de 0,1 Gy é derivada de estudos em animais e de dados extrapolados de sobreviventes das explosões nucleares. Na prática clínica, além das medidas de protecção do feto, a radiação é recebida ao longo de um período de semanas de tratamento e em doses fraccionadas pelo que só raramente a dose excederia os 0,2 Gy em tumores extra-pélvicos. E, reconhecem estes autores, «para doses fetais inferiores a 0,2 Gy a terminação da gravidez pode não estar justificada»[372].

De qualquer modo, o mais adequado é tentar atrasar o mais possível o início da radioterapia, para etapas em que o feto é menos susceptível aos efeitos radiotóxicos. Evidentemente, deve buscar-se um compromisso para obter o máximo benefício para a mãe e para o filho. A experiência de alguns autores tem demonstrado que é factível iniciar o tratamento da neoplasia com cirurgia ou quimioterapia atrasando o início da radioterapia para depois do parto, que eventualmente poderia ser antecipado para quando o feto fosse viável[373].

Com estas medidas, a radioterapia em tumores extra-pélvicos não é considerada incompatível com a gravidez, ou seja, a gravidez não representa uma contra-indicação absoluta para a radioterapia.

O principal problema são os cancros da região pélvica que não podem ser tratados com radiações sem excluir consequências severas ou, mais provavelmente, letais para o feto[374]. Este é o caso de tumores do colo uterino em estadio avançado e diagnosticados no primeiro ou segundo trimestre da gravidez; a maioria dos autores consideram que a radioterapia não deve ser atrasada e a consequência inevitável é a morte do feto. Mais adiante estudar-se-á este caso, as alternativas terapêuticas e implicações éticas.

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[368] Cfr. E. Fenig, M. Mishaeli, Y. Kalish, M. Lishner, Pregnancy and radiation, o.c., p. 3; H. B. Kal, H. Struikmans, Radiotherapy during pregnancy: fact and fiction, o.c., pp. 330 e 331.

[369] Cfr. tabela em: H. B. Kal, H. Struikmans, Radiotherapy during pregnancy: fact and fiction, o.c., p. 331.

[370] Cfr. H. B. Kal, H. Struikmans, Radiotherapy during pregnancy: fact and fiction, o.c., p. 330.

[371] Cfr. R. Orecchia, G. Lucignani, G. Tosi, Prenatal Irradiation and Pregnancy: The Effects of Diagnostic Imaging and Radiation Therapy, em A. Surbone, F. Peccatori, N. Pavlidis (eds.), Cancer and Pregnancy, Springer, Berlin Heidelberg 2008, p. 15.

[372] Cfr. H. B. Kal, H. Struikmans, Radiotherapy during pregnancy: fact and fiction, o.c., p. 332.

[373] Cfr. J. D. Azcona, R. Martínez Monge, Radioterapia y teratogénesis, o.c., pp. 48 e 49; R. Orecchia, G. Lucignani, G. Tosi, Prenatal Irradiation and Pregnancy: The Effects of Diagnostic Imaging and Radiation Therapy, o.c., p. 14.

[374] Cfr. H. B. Kal, H. Struikmans, Radiotherapy during pregnancy: fact and fiction, o.c., pp. 331 e 332.

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