Passagem transplacentar dos citotóxicos

Para que o feto seja afectado pela exposição a uma droga, incluindo os agentes quimioterápicos, esta deve atravessar a placenta. A teratogenicidade de qualquer droga depende do período da gestação em que é administrada, da dose, e das características que afectam a transferência para a placenta. Algumas características dos medicamentos facilitam que possam atravessar a placenta e eventualmente causar maior toxicidade fetal: maior lipossolubilidade, baixo peso molecular, e pouca ligação às proteínas intra-plasmáticas[378]. Muitos dos fármacos quimio-terápicos têm estas características e podem, por conseguinte, atravessar a placenta e causar danos no feto.

Contudo, existem poucos e pequenos estudos que avaliem a passagem transplacentar e a concentração de citotóxicos no líquido amniótico, sangue do cordão umbilical e tecidos placentares e fetais[379]. Além disso, os resultados são por vezes contraditórios.

Em resumo, não existem dados suficientes sobre a teratogenicidade da maioria dos agentes quimioterápicos. A maioria das drogas demonstraram poder ser teratogénicas em estudos com animais e para algumas drogas só existem dados experimentais. No entanto, as doses de citotóxicos usadas em humanos são geralmente inferiores às doses mínimas teratogénicas empregadas em experiências com animais e é difícil extrapolar os resultados em modelos animais para o ser humano. Além disso, com frequência são usadas associações de drogas anti-neoplásicas, sendo complicado fazer uma estimativa precisa do efeito de cada droga. Por outro lado, a predisposição genética pode explicar a diferente susceptibilidade entre as pacientes que recebem o mesmo tratamento de quimioterapia[380].

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[378] Cfr. G. Powis, Anticancer drug pharmacodynamics, «Cancer Chemother Pharmacol» 14 (1985), pp. 177-183; K. Gwyn, Children exposed to chemotherapy in utero, o.c., p. 70; D. Pereg, M. Lishner, Maternal and fetal effects of systemic therapy in the pregnant woman with cancer, em A. Surbone, F. Peccatori, N. Pavlidis (eds.), Cancer and Pregnancy, Springer, Berlin Heidelberg 2008, pp. 21 e 22.

[379] Cfr. S. Marnitz, C. Köhler, P. Oppelt, A. Schmittel, G. Favero, K. Hasenbein, A. Schneider, M. Markman, Cisplatin application in pregnancy: first in vivo analysis of 7 patients, «Oncology» 79 (2010), pp. 72-77.

[380] Cfr. D. C. Doll, Q. S. Ringenberg, J. W. Yarbro, Antineoplastic agents and pregnancy, «Semin Oncol» 16 (1989), p. 2059; E. Cardonick, A. Iacobucci, Use of chemotherapy during human pregnancy, o.c., p. 283; D. Pereg, M. Lishner, Maternal and fetal effects of systemic therapy in the pregnant woman with cancer, o.c., p. 21.

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