Observações conclusivas sobre quimioterapia e malformações

Passadas várias décadas desde que se começou a empregar citotóxicos na terapêutica do cancro, ainda está por esclarecer o risco de malformações fetais secundárias à administração de quimioterapia.

De facto, apesar de se terem feitos esforços notáveis para fazer registos multicêntricos dos casos de cancro e gravidez, em grande parte ainda são acertados os comentários de Koren no seu livro sobre cancro e gravidez: «a generalidade dos dados são muito ténues porque não é conhecido o denominador, ou o número total destas exposições. Pode dizer-se, por exemplo, que os clínicos escolhem para relatar só os casos adversos, sobrevalorizando assim o potencial teratogénico da quimioterapia. Mas, pode argumentar-se que um resultado normal deveria igualmente considerar-se suficientemente importante para ser registado»[551].

Actualmente é geralmente consensual que a quimioterapia pode ser administrada com relativa segurança durante o segundo e terceiro trimestres da gravidez.

Mas quando se decide administrar quimioterapia no primeiro trimestre muitos autores consideram que o aborto “terapêutico” deve ser aconselhado às gestantes. A razão é evitar o nascimento de crianças com malformações congénitas ou outras sequelas precoces ou tardias da exposição à quimioterapia in utero.

É certo que a decisão de administrar tratamento citotóxico no período próximo à concepção e no primeiro trimestre da gravidez deve ser cuidadosamente ponderada pelos médicos, pela gestante e pelos familiares; e, na medida do possível, a grávida deve conhecer os riscos do tratamento para si e para o filho.

No entanto, verifica-se a maioria dos artigos científicos parecem destacar exageradamente os riscos fetais da quimioterapia e a terminação da gravidez é proposta ou até recomendada com muita ligeireza, para evitar o nascimento potencial de uma criança com malformações. Como demonstrou uma publicação recente, quer da parte dos médicos quer dos pacientes, existe com frequência uma percepção exagerada dos riscos teratogénicos da exposição a medicamentos[552]. Na dúvida, e sempre, é eticamente incorrecto recomendar o aborto, tanto mais que não é o modo de resolver o problema da mãe. Pelo contrário, deve continuar a investigação médica para avaliar com maior rigor os possíveis efeitos adversos do cancro e do seu tratamento na descendência[553], bem como buscar alternativas que permitam tratar a mãe e proteger a saúde e a vida do filho.

Na realidade, a evidência dos resultados clínicos publicados é distinta e, portanto, muitas crianças que seriam saudáveis ou com malformações perfeitamente compatíveis com uma vida normal têm sido impedidas de nascer. De facto, é fundamental reconhecer que os estudos disponíveis na literatura médica sugerem que a exposição à quimioterapia, mesmo durante o primeiro trimestre da gestação, é compatível com um desenvolvimento normal das crianças em mais de 90% dos casos.

Importa também considerar que qualquer gravidez normal apresenta sempre algum risco de malformações congénitas, tal como qualquer outra situação vital.

Além disso, embora alguns médicos considerem que a vida com certas incapacidades não é tolerável, muitas pessoas que sofrem alguma incapacitadas são verdadeiramente felizes, e não pensam que as suas vidas sejam menos valiosas que as vidas dos demais[554].

Finalmente, se se tiver em conta que muitos dos resultados destes estudos de cancro e gravidez fazem referência a casos tratados com citotóxicos que já não se utilizam – precisamente porque se demonstrou o seu potencial teratogénico – e que hoje em dia se conhecem algumas estratégias que permitem contornar os perigos da quimioterapia durante a gravidez, pode mesmo dizer-se que a quimioterapia, em geral, apresenta riscos de malformações congénitas não muito mais elevados que numa gravidez normal.

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Por estas razões, estamos convencidos de que uma abordagem multidisciplinar poderá proporcionar uma terapêutica adequada à doença neoplásica da mulher grávida, sem comprometer o êxito feliz da gravidez até ao parto e nascimento.

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[551] G. Koren, M. Lishner, D. Farine, Cancer in pregnancy: maternal and fetal risks, o.c., pp. 6 e 7.

[552] Neste estudo avaliou-se a percepção do risco teratogénico associado a drogas, radiação e infecções. Num total de 8.664 chamadas telefónicas que contactaram o “Teratology Information Service”, em Roma durante o ano de 2006, a maioria das pessoas que contactavam queriam saber informação com respeito ao uso de medicamentos. O aumento de risco estava presente em apenas 5% dos casos. Os autores do estudo concluem que «esta experiência confirma os dados prévios, de que existe uma elevada percepção de risco teratogénico entre as mulheres e os médicos»: cfr. M. De Santis, E. Cesari, M. S. Ligato, E. Nobili, G. Straface, A. Cavaliere, A. Caruso, Prenatal drug exposure and teratological risk: one-year experience of an Italian teratology information service, «Med Sci Monit» 14 (2008), p. 1.

[553]Cfr. V. Langagergaard, Birth outcome in women with breast cancer, cutaneous malignant melanoma, or Hodgkin’s disease: a review, o.c., p. 18.

[554] A este respeito podem consultar-se, entre outros, os interessantes alguns trabalhos de Saigal: cfr. S. Saigal, D. Feeny, P. Rosenbaum, W. Furlong, E. Burrows, B. Stoskopf, Self-perceived health status and health-related quality of life of extremely low-birth-weight infants at adolescence, «JAMA» 276 (1996), pp. 453-459; S. Saigal, P. L. Rosenbaum, D. Feeny, E. Burrows, W. Furlong, B. L. Stoskopf, L. Hoult, Parental perspectives of the health status and health-related quality of life of teen-aged children who were extremely low birth weight and term controls, «Pediatrics» 105 (2000), pp. 569-574; S. Saigal, B. Stoskopf, J. Pinelli, D. Streiner, L. Hoult, N. Paneth, J. Goddeeris, Self-perceived health-related quality of life of former extremely low birth weight infants at young adulthood, «Pediatrics» 118 (2006), p. 1140.

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