Noções gerais sobre a quimioterapia durante a gravidez

A administração de quimioterapia durante a gravidez pode induzir efeitos nocivos para o feto, o recém-nascido e a mãe. Para o feto e o recém-nascido esses efeitos deletérios incluem «morte fetal, malformações, teratogénese, mutações, carcinogénese, toxicidade orgânica e atraso de crescimento»[381]; para a mãe, além da toxicidade geral da quimioterapia deve referir-se o risco de esterilidade.

A “Food and Drug Administration” é o organismo com a responsabilidade de rever toda a informação sobre os medicamentos e os resultados dos estudos, quer experimentais quer in vivo. Em função destes estudos atribui uma ”pregnancy category” (de A a D ou X) que considera a segurança dum determinado medicamento para a mulher grávida e o feto em gestação. Muitos dos agentes citotóxicos ou citostáticos utilizados no tratamento do cancro estão incluídos na categoria D, que significa que a sua utilização na mulher grávida está associada a um risco potencial de toxicidade[382]. Por conseguinte, a decisão de iniciar um tratamento oncológico deve ser sempre ponderada cuidadosamente pelo médico e pela mulher grávida, considerando os riscos potenciais e os efeitos benéficos que se esperam obter.

Como referido, teoricamente todas as drogas quimioterápicas podem atravessar a placenta e produzir toxicidade fetal de maior ou menor gravidade. Mas é muitas vezes difícil distinguir entre os efeitos deletérios fetais produzidos directamente pela quimioterapia, das eventuais consequências negativas de um ambiente intra-uterino adverso ou dos resultantes da toxicidade materna como neutropenia, infecções, trombocitopenias ou toxicidade orgânica[383].

Por outro lado, as consequências da quimioterapia são determinadas por factores diversos como a dose, o tempo de exposição, o momento gestacional de exposição, etc. Na maioria dos casos, os efeitos tóxicos graves foram reportados quando o tratamento foi administrado durante o primeiro trimestre de gestação e são menos importantes quando administrada nos trimestres seguintes.

Além disso, o risco potencial de toxicidade e malformações fetais é diferente consoante o tipo de agente quimioterápico. Os anti-metabolitos (aminopterina, metotrexato, 5-fluracilo, citarabina) e os agentes alquilantes (busulfan, ciclofosfamida, clorambucil) apresentam um maior risco documentado. Os alcalóides da vinca (vincristina e vimblastina) e as antraciclinas parecem ter poucos efeitos tóxicos no feto. O cisplatino pode causar restrição do crescimento intrauterino e toxicidade auditiva, enquanto que o etoposido se associa a pancitopenia. A experiência com taxanos é reduzida e por isso em geral estão contra-indicados[384].

Apresentam-se em seguida as principais noções acerca da toxicidade da quimioterapia, consoante o tempo de gestação em que é administrada, tal como habitualmente se descreve nos principais artigos e livros sobre o cancro e gravidez[385].

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[381] Cfr. N. A. Pavlidis, Coexistence of pregnancy and malignancy, o.c., p. 280.

[382] Classe A: drogas consideradas seguras durante a gravidez; classe D: evidência de risco fetal; classe X: contra-indicadas na gravidez pela sua provada teratogenicidade. Cfr. G. Koren, A. Pastuszak, I. Shinya, Drugs in pregnancy, «N Eng J Med» 338 (1998), pp. 1134 e 1135.

[383] Cfr. M. Muslim, J. Goldberg, A. Hageboutros, Chemio e radioterapia in gravidanza, o.c., pp. 152-154.

[384] Para mais dados sobre os efeitos secundários dos agentes citotóxicos: cfr. J. I. Sorosky, A. K. Sood, T. E. Buekers, The use of chemotherapeutic agents during pregnancy, «Obstet Gynecol Clin North Amer» 24 (1997), pp. 591-599; E. Cardonick, A. Iacobucci, Use of chemotherapy during human pregnancy, o.c., pp. 284-287; D. Pereg, M. Lishner, Maternal and Fetal Effects of Systemic Therapy in the Pregnant Woman with Cancer, o.c., pp. 24-34.

[385] G. Koren, M. Lishner, D. Farine, Cancer in pregnancy: maternal and fetal risks, o.c.; E. R. Barnea, E. Jauniaux, P. E. Schwartz (eds.), Cancro e gravidanza, o.c.; G. López, Cáncer y embarazo, o.c.; A. Surbone, F. Peccatori, N. Pavlidis (eds.), Cancer and Pregnancy, o.c.

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