Mortalidade materna

A mortalidade materna engloba o conjunto de mortes durante a gravidez, o trabalho de parto ou do puerpério. De acordo com o “Williams Obstetrics” a taxa de mortalidade materna define-se pelo «número de mortes que resultam do processo reprodutivo, por 100.000 nascimentos vivos»[41].

Por razões de melhor sistematização podem considerar-se segundo três epígrafes[42]:

a) Mortalidade materna directa: quando a morte da mãe é resultado de uma complicação da própria gravidez e não relacionada com nenhuma doença materna preexistente (por exemplo, a morte por hemorragia devido à perfuração do útero);

b) Mortalidade materna indirecta: morte materna não directamente devida a uma causa obstétrica, mas resultado de uma doença preexistente, ou duma doença que se desenvolveu durante a gravidez, trabalho de parto ou puerpério, mas que se agravou pelas adaptações fisiológicas maternas à gravidez (por exemplo, uma complicação de estenose da válvula mitral);

c) Mortalidade não materna ou independente: mortes da mãe que resultam de causas acidentais ou incidentais não relacionadas com a gravidez (por exemplo: acidente de automóvel).

Nos Estados Unidos da América o número de mortes maternas diminuiu quase 99% durante o século XX; em 1900 havia 850 mortes maternas (não se inclui a mortalidade independente) por cada 100.000 nascimentos vivos; esse número diminuiu para 7,5 mortes, em 1982, e desde essa data os números não tem variado muito[43].

No ano 2003 a taxa de mortalidade materna dos Estados Unidos foi de 11 mortes maternas por cada 100.000 nascimentos vivos, dados que são semelhantes aos de outros países desenvolvidos, como se demonstra num recente relatório da Organização Mundial da Saúde. De facto, e de acordo com as cifras oficiais, no mesmo ano de 2003 a mortalidade materna noutros países desenvolvidos, foi a seguinte: Irlanda (1 morte por 100.000 nascimentos vivos), Dinamarca e Suécia (3), Austrália, Áustria, Alemanha, Israel e Espanha (4), Suíça (5), Holanda (6), Canadá, Finlândia e Noruega (7), Bélgica, França e Reino Unido (8), Portugal (11)[44].

Isto é, sem dúvida, a consequência de um enorme progresso tecnológico e científico da medicina, que tem possibilitado que a maioria das doenças orgânicas que complicam uma gravidez possam ser eficazmente controladas com uma adequada assistência médica interdisciplinar, e que deste modo se possa garantir com relativa segurança o controle duma gravidez até alcançar a viabilidade do feto, sem comprometer a saúde materna ou do filho.

Entre as 4.200 mortes relacionadas com a gravidez nos Estados Unidos, entre os anos 1991 e 1999, registaram-se as seguintes causas de mortalidade materna[45]:

1. Embolismo – 19,6%

2. Hemorragia – 17,2%

3. Complicações hipertensivas – 15,7%

4. Infecção – 12,6%

5. Cardiomiopatia – 8,3%

6. Acidentes vasculares cerebrais – 5,0%

7. Complicações anestésicas – 1,6%

8. Outros – 19,2% (a maioria problemas cardiovasculares, pulmonares ou neurológicos)

9. Desconhecidos – 0,7%

No entanto, estes dados também não permitem informar em que situações o “aborto terapêutico” poderia ter evitado a morte da mãe.

Além disso, existem algumas situações clínicas que contribuem para as estatísticas de mortalidade materna, mas que pela progressão aguda e imprevisível não poderiam ser evitadas pelo aborto. A miocardiopatia idiopática do periparto, por exemplo, raramente apresenta sintomatologia antes das 36 semanas de gestação e pode manifestar-se até 5 meses depois do parto; tem uma taxa de mortalidade superior a 20% e, logicamente, provocar o aborto não melhora o prognóstico, estando mesmo contra-indicado[46]. Outro exemplo de patologia aguda, habitualmente fatal, é a embolia de líquido amniótico[47].

Por outro lado, também se poderia argumentar dizendo que a mortalidade materna nestes países só não é mais elevada porque nas mulheres afectadas por patologias em que a gravidez pode constituir um risco de saúde ou de vida, são mais eficazes as estratégias de esterilização e contracepção e, quando estas falham, se realiza o aborto terapêutico a título preventivo.

[41] F. G. Cunningham, K. J. Leveno (ed.), Williams Obstetrics, o.c., p. 5.

[42] Cfr. ibid.

[43] Cfr. ibid., p. 7.

[44] Cfr. “World Health Organization. Maternal mortality in 2005” (Fonte: www.who.int /whosis/mme_2005.pdf, visto a 8.VII.2011).

[45] Cfr. F. G. Cunningham, K. J. Leveno (ed.), Williams Obstetrics, o.c., p. 8. Pode ser interessante saber que em 2002, nos EUA houve 4.021.726 nascimentos vivos.

[46] Cfr. A. Pijuan Domènech, M. A. Gatzoulis, Pregnancy and heart disease, «Rev Esp Cardiol» 59 (2006), p. 979.

[47] Cfr. S. L. Clarck, G. D. Hankins, D. A. Dudley, G. A. Dildy, T. F. Porter, Amniotic fluid embolism. Analysis of a national registry, «Am J Obstet Gynecol» 172 (1995), pp. 1158-1167.

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