Emprego seguro das técnicas de imagem

Feitas as anteriores aclarações, pode afirmar-se que se um exame radiológico estiver recomendado para o estudo de determinada neoplasia, em geral o risco para a mulher grávida de não se efectuar esse exame é superior aos potenciais perigos para o feto[352].

De facto, uma exposição radiológica única não atinge o limiar de 50 mGy (ou 0,05 Gy) e, portanto, não é perigosa para o feto. Este limite de 50 mGy foi estabelecido em 1977 pelo “National Council on Radiation Protection”, por dois motivos: primeiro, porque a maioria dos procedimentos diagnósticos radiológicos não excedem este valor e, em segundo lugar, porque o limiar para defeitos no nascimento durante os períodos mais sensíveis do desenvolvimento embrionário é superior a 200 mGy[353].

Assim, e em consonância com o “American College of Obstetricians and Gynecologists”, a exposição durante a gravidez a uma exploração radiológica não é indicação para realizar um aborto[354]. Além disso, existem técnicas de fraccionamento ou espaçamento da radiação, entre outras, que permitem reduzir o risco teratogénico fetal[355].

Importa saber que existem diferenças muito significativas das doses de radiação associadas às distintas modalidades diagnósticas, mas a dose fetal resultante da maioria dos exames radiológicos convencionais é menor que 0,01 Gy, muito inferior ao limiar da dose para os efeitos determinísticos e não representa um risco substancial de causar a morte do feto, malformações ou compromisso do desenvolvimento mental[356].

A ecografia e a ressonância magnética nuclear não empregam radiações ionizantes, pelo que não se associam aos riscos descritos da radiação. No entanto, se a ecografia é segura e pode ser usada sem limitações durante toda a gravidez, já a ressonância magnética, apesar de ser uma técnica considerada segura, está desaconselhada durante o primeiro trimestre porque não se conhecem completamente os seus efeitos.

O emprego em estudos radiológicos de meios de contraste de iodo ou gadolínio deve ser muito limitado durante a gravidez e restringido aos casos em que se considere absolutamente imprescindível, se bem que pareça pouco provável que possam causar danos ao feto[357].

Em definitivo, e como se assinala nas conclusões um estudo do “Motherisk Program”, um número significativo de abortos “terapêuticos” são injustificadamente realizados em mulheres grávidas expostas a radiação devido ao receio de riscos teratogénicos. Efectivamente, acrescentam os autores do estudo, os dados disponíveis sugerem que os procedimentos diagnósticos actualmente usados em radiologia são seguros e não justificam a terminação da gravidez[358]. Outros autores são da mesma opinião[359].

Na prática clínica, embora as técnicas radiológicas diagnósticas sejam habitualmente seguras durante a gravidez dever-se-iam empregar preferencialmente técnicas de imagem que não utilizem radiação ionizante, especialmente durante o primeiro trimestre e desde que permitam um diagnóstico correcto. Se é necessário e justificado utilizar técnicas com radiação ionizante, pode calcular-se a dose e programar os aparelhos e técnica de utilização para reduzir a radiação.

…………………………….

[352] Cfr. ibid.

[353] Cfr. R. Cohen-Kerem, I. Nulman, M. Abramow-Newerly, D. Medina, R. Maze, R. L. Brent, G. Koren, Diagnostic radiation in pregnancy: perception versus true risks, o.c., p. 43.

[354] Cfr. ACOG Committee on Obstetric Practice, Guidelines for diagnostic imaging during pregnancy, «Obstet Gynecol» 104 (2004), pp. 647-651.

[355] Cfr. R. Cohen-Kerem, I. Nulman, M. Abramow-Newerly, D. Medina, R. Maze, R. L. Brent, G. Koren, Diagnostic radiation in pregnancy: perception versus true risks, o.c., p. 43.

[356] Cfr. H. B. Kal, H. Struikmans, Radiotherapy during pregnancy: fact and fiction, o.c., p. 329.

[357] Cfr. G. López, Cáncer y embarazo, Eunsa, Pamplona 2007, p. 36.

[358] Cfr. R. Cohen-Kerem, I. Nulman, M. Abramow-Newerly, D. Medina, R. Maze, R. L. Brent, G. Koren, Diagnostic radiation in pregnancy: perception versus true risks, o.c., p. 47.

[359] Cfr. E. Fenig, M. Mishaeli, Y. Kalish, M. Lishner, Pregnancy and radiation, o.c., p. 1: «The risks of foetal exposure to X-rays have been the subject of numerous studies over the last 50 years. The lack of clear information has given rise to unjustified panic among the public. Indeed, fear of X-ray-induced foetal defects has led some women with unsuspected pregnancy who underwent radiography to terminate the pregnancy. In addition, many doctors tend to refrain from performing necessary dental, chest or other forms of radiographic imaging in pregnant women. (…) It seems that, due to the low level of X-ray exposure to the foetus, neither diagnostic radiography nor nuclear diagnostic examination justifies termination of pregnancy» (o sublinhado é meu).

Aborto e ética. Todos os direitos reervados.

aborto