Efeitos a longo prazo da quimioterapia in utero

O facto de que o sistema nervoso central continue a desenvolver-se ao longo da gestação suscitou alguma preocupação respeitante aos efeitos a longo prazo no neuro-desenvolvimento das crianças expostas a quimioterapia in utero. Outros motivos de preocupação constituem as neoplasias secundárias e o eventual compromisso da fertilidade nestas crianças.

Deve assinalar-se, em primeiro lugar, que também a informação relativa aos efeitos a longo prazo da quimioterapia administrada a mulheres grávidas é escassa. Uma das dificuldades na realização destes estudos é evidentemente a pouca frequência destas situações, mas também pode explicar-se a escassez de dados pelo facto de que muitas pacientes grávidas com cancro tenham o parto num hospital e depois recorram a um hospital diferente para receber a quimioterapia sistémica; outra razão é a natureza retrospectiva da maioria dos estudos.

Avilés e Neri registaram a série mais numerosa e extensa que avalia os efeitos da exposição a quimioterapia in utero em mulheres grávidas com neoplasias hematológicas: um “follow-up” médio de 18,7 anos (intervalo: 6-29 anos) de 84 crianças expostas a quimioterapia durante a gestação (38 crianças durante o primeiro trimestre), não revelou deficiências a nível do crescimento físico nem do desenvolvimento neurológico ou psicológico. Também não se verificou nenhuma neoplasia e não se demonstraram consequências deletérias a nível de fertilidade[409].

Outro estudo de revisão avaliou 111 crianças cujas mães receberam quimioterapia durante a gravidez. O seguimento destas crianças (entre 1 e 19 anos) evidenciou igualmente um neuro-desenvolvimento normal[410]. Existem outros estudos que pretenderam documentar os efeitos a longo prazo da quimioterapia, mas são claramente mais limitados [411].

Sem dúvida, e nisso concordam todos os autores, são necessários estudos prospectivos que permitam avaliar com maior segurança e certeza as consequências imediatas e tardias da quimioterapia administrada in utero, informação que é essencial para orientar a abordagem terapêutica futura de mulheres grávidas com cancro. Além disso, esta informação torna-se imprescindível para poder esclarecer adequadamente os progenitores no momento da decisão terapêutica.

Provavelmente muitas das mães com cancro e que receberam quimioterapia decidiram abortar e, evidentemente, estes casos não estão publicados. Mas é provável que existam mais casos não registados de mulheres grávidas que receberam quimioterapia e que decidiram prosseguir a gravidez.

Como admite Cardonick, a publicação destes casos deve ser encorajada, na medida em que quantos mais recém-nascidos expostos a quimioterapia forem observados, menos mulheres grávidas com cancro que recusarem o aborto ficarão sem tratamento[412]. É interessante esta afirmação pois significa o reconhecimento de que quanto maior for o conhecimento científico da associação de cancro e gravidez mais seguro será o tratamento do cancro na mulher grávida, sem “necessidade” de recomendar o aborto.

Em conclusão, é possível afirmar a impressão geral que se obtém dos dados disponíveis sugere que a quimioterapia não tem um impacto importante no desenvolvimento neurológico, nem se associa a risco acrescido de neoplasias ou de infertilidade[413].

Logicamente, quando para uma determinada neoplasia existe mais de um regime eficaz de quimioterapia, as drogas devem ser seleccionadas com base à sua maior investigação e menor risco de toxicidade.

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[409] Cfr. A. Avilés, N. Neri, Hematological malignancies and pregnancy: a final report of 84 children who received chemotherapy in utero, o.c., pp. 173-177.

[410] Cfr. I. Nulman, D. Laslo, S. Fried, E. Uleryk, M. Lishner, G. Koren, Neurodevelopment of children exposed in utero to treatment of maternal malignancy, «Br J Cancer» 85 (2001), pp. 1611-1618.

[411] Cfr. E. E. Reynoso, F. A. Shepherd, H. A. Messner, H. A. Farquharson, M. B. Garvey, M. A. Baker, Acute leukemia during pregnancy: the Toronto Leukemia Study Group experience with long-term follow-up of children exposed in utero to chemotherapeutic agents, o.c., pp. 1098-1106; K. Gwyn, Children exposed to chemotherapy in utero, o.c., pp. 69-71.

[412] Cfr. E. Cardonick, A. Iacobucci, Use of chemotherapy during human pregnancy, o.c., p. 290: «As we continue to follow up exposed newborns, fewer pregnant women who decline termination will not be denied treatment for cancer».

[413] Cfr. A. Avilés, N. Neri, Hematological malignancies and pregnancy: a final report of 84 children who received chemotherapy in utero, o.c., p. 177; E. Cardonick, A. Iacobucci, Use of chemotherapy during human pregnancy, o.c., pp. 288 e 289; D. Pereg, M. Lishner, Maternal and Fetal Effects of Systemic Therapy in the Pregnant Woman with Cancer, o.c., p. 23.

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