Conceito de gravidez de risco médico

Para poder enquadrar adequadamente o estudo que se está a realizar, outra noção que deve ser explicada é a de “gravidez de risco médico”.

Num importante manual sobre este argumento define-se a gravidez de risco como «qualquer gravidez em que exista um factor materno ou fetal que possa afectar adversamente o prognóstico como de alto risco»[37].

Na edição “on-line” do reconhecido manual da Merck diz-se que «não existe uma definição formal ou universalmente aceite de gravidez de alto risco. No entanto, em geral, uma gravidez de alto risco envolve ao menos um dos seguintes aspectos: existe uma maior probabilidade de morte da mulher ou da criança; existe maior probabilidade de complicações antes ou depois do parto»[38].

Estas duas definições permitem constatar a dificuldade para estabelecer critérios objectivos para distinguir uma gravidez normal de uma gravidez de alto risco.

De facto, mesmo partindo do dado unanimemente aceite que qualquer gravidez envolve sempre alguns riscos, definir depois os limites a partir dos quais uma gravidez deve ser considerada de alto risco é complicado e os critérios podem variar de acordo com o médico ou o hospital, e até com a própria interpretação subjectiva do estado de saúde da mulher grávida. Outro aspecto que se constata na literatura médica é que, consoante a especialidade médica a que se dirige a publicação seja a neonatologia ou a obstetrícia, a determinação do risco focaliza-se no risco para o feto ou no risco para a mãe[39].

Isto pode explicar que no prestigioso manual de obstetrícia – o “Williams Obstetrics”, na última edição –, não se defina o conceito de gravidez de alto risco e não se estabeleça nenhuma enumeração de factores de risco duma gravidez. Logicamente, são abordadas com profundidade e ao longo de muitas páginas as múltiplas possíveis complicações da gravidez, mas desde perspectivas várias que seria impossível resumir numa lista ou tabela.

Independentemente destas razões, estaria fora dos objectivos deste trabalho abordar cada um dos factores de risco associados a uma gravidez. Como já se disse, este trabalho visa somente estudar se existem situações em que o estado de gravidez constitui um perigo sério para a vida ou a saúde da mulher grávida e em que, por conseguinte, se coloca a possibilidade de abortar para salvar a vida da mãe.

Porém, como se diz no “Williams Obstetrics”, «o aborto terapêutico para salvar a vida da mãe é raramente necessário»[40] e, por conseguinte, não é uma tarefa fácil identificar estas situações clínicas.

Uma perspectiva para identificar as eventuais razões para o “aborto terapêutico” seria estudar as principais causas de mortalidade materna. De facto, considerar o aborto terapêutico pressupõe a existência de situações clínicas em que o estado de gravidez constitui efectivamente um perigo de vida para a mãe e, portanto, pode ser interessante estudar a questão da mortalidade materna e qual é a sua relevância epidemiológica.

Ver também:

Mortalidade materna

«Indicações» para o aborto terapêutico

[37] J. T. Queenan (ed.), Management of High-Risk Pregnancy, Blakwell Publishing, Massachussets 20075, p. 3. O autor é Professor do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia no Georgetown University Hospital e tem vários livros publicados sobre “Gravidez de alto risco”.

[38] C. M. Briery, J. Morrison, Pregnancy at high-risk, Merck Manual Online, 2008. (Pode consultar-se em: www.merckmanuals.com/home/sec22/ch255/ch255 a.html, visto a 12.VII.2011).

[39] Habitualmente consideram-se que as causas de um gravidez de risco são variadas e podem ser maternas ou fetais. Os factores maternos geralmente considerados são múltiplos e incluem, entre outros, a idade (menos de 15 e mais de 35 anos), obesidade, história de complicações em gravidezes prévias (abortos, parto pré-termo, preclâmpsia ou eclâmpsia), mais de cinco gravidezes, hemorragias durante o terceiro trimestre de gestação, anomalias do tracto reprodutivo, hipertensão, incompatibilidade Rh, diabetes gestacional, infecções, febre, doenças crónicas pré-existentes (como doenças cardio-vasculares, doenças pulmonares, doenças auto-imunes, etc.). Do ponto de vista fetal, os principais factores de risco podem constituir determinadas anomalias fetais, infecções, exposição ao tabaco, outras substâncias aditivas, drogas teratogénicas, etc. Cfr., por exemplo: idem, Pregnancy risk assessment, Merck Manual Online, 2009. (Pode consultar-se a tabela em: www.merckmanuals.com/media/professional/pdf/ Table_262-1.pdf. Visto a 8.VII.2011).

[40] F. G. Cunningham, K. J. Leveno (ed.), Williams Obstetrics, o.c., p. 241 (o sublinhado é meu).

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