Cirurgia

Durante a cirurgia o feto é exposto aos efeitos dos agentes anestésicos que atravessam a barreira transplacentar. Os anestésicos mais frequentemente usados – óxido nitroso, enflurano, barbitúricos e narcóticos – foram amplamente administrados com segurança durante a gravidez. Algumas estimativas calculavam um risco de 8-11% de morte fetal durante a cirurgia no primeiro trimestre; isto com base em pequenas séries, que não especificam o tipo de cirurgia, e sem aumento do risco de malformações fetais[362]. Outro estudo mais recente demonstrou que com as técnicas cirúrgicas e anestésicas modernas, o risco de aborto é menor e a cirurgia no primeiro trimestre não aumenta os defeitos graves fetais e, por conseguinte, não deve ser atrasada quando se considera necessário[363].

Deve dizer-se que o risco para o feto associado à cirurgia não está apenas relacionado com a anestesia, mas inclui também complicações intra-operatórias, como hipóxia e hipotensão. A diminuição da perfusão placentar secundária ao posicionamento prolongado da grávida em posição supina pode constituir outro factor de risco, sobretudo nos estadios mais avançados da gravidez. Além disso, outros problemas pós-operatórios como febre, infecções, desordens gastrointestinais, desequilíbrios nutricionais e fenómenos tromboembólicos podem afectar adversamente o bem-estar fetal[364].

É também importante distinguir entre neoplasias intra e extra-abdominais: uma laparotomia tem maiores probabilidades de interferir com a gravidez que uma cirurgia extra-abdominal. E, à medida que o útero aumenta de dimensões, a cirurgia torna-se mais complicada: pode ser necessário a retracção do útero e é fundamental ser cuidadoso para não comprometer o fluxo sanguíneo placentar ou induzir o descolamento da placenta.

Logicamente, o seguimento e aconselhamento por uma equipa multidisciplinar especializada – que inclua um obstetra, um oncologista, um neonatologista e um anestesista experimentados – permite afrontar com maior segurança estas situações, especialmente quando se programa uma cirurgia abdominal e pélvica major[365]. Sempre que a cirurgia comporte riscos de precipitar um parto prematuro devem administrar-se profilacticamente substâncias que acelerem a maturação pulmonar do feto.

Por outro lado, as ansiedades e medos com respeito à anestesia e à cirurgia durante a gravidez são provavelmente exagerados em relação aos riscos efectivos. De facto, geralmente não se considera a taxa geral de cerca de 15% de abortos espontâneos e, portanto, qualquer aborto que se verifique no contexto de uma intervenção operatória é atribuído à cirurgia ou anestesia[366].

………………………..

[362] Cfr. J. B. Brodsky, E. N. Cohen, B. W. Brown, Surgery during pregnancy and fetal outcome, «Am J Gynecol» 138 (1980), p. 1165.

[363] Cfr. R. Cohen-Kerem, C. Railton, D. Oren, M. Lishner, G. Koren, Pregnancy outcome following non-obstetric surgical intervention, o.c., p. 467.

[364] Cfr. G. Koren, M. Lishner, D. Farine, Cancer in pregnancy: maternal and fetal risks, Cambridge University Press, Cambridge 1996, p. 9.

[365] Cfr. E. Mathieu, P. Merviel, J. M. Antoine, S. Uzan, Cancer and Pregnancy: the point of view of the obstetrician, «Bull Cancer» 89 (2002), p. 758.

[366] Cfr. B. J. Moran, H. Yano, N. Al Zahir, M. Farquharson, Conflicting priorities in surgical intervention for cancer in pregnancy, o.c., p. 538.

Aborto e ética. Todos os direitos reervados.

aborto